O Último Passo de Borom, o Mamute
O vento cortava como lâminas invisíveis. O céu, coberto por nuvens cinzentas, pesava sobre a planície congelada. Borom, um mamute de presas longas e curvadas como luas gêmeas, caminhava devagar, afundando suas patas nas crostas de neve endurecida. Ele já não ouvia mais o chamado do seu rebanho — não porque estivessem longe, mas porque, um a um, eles haviam desaparecido.
A Era do Gelo estava mudando. O frio, que sempre havia sido seu lar, agora parecia mais traiçoeiro. A neve caía sem parar, cobrindo a pouca vegetação que ainda resistia. Borom sabia que havia menos espaço e menos comida, e que os ventos traziam algo mais do que gelo: traziam silêncio.
Certa manhã, enquanto o sol pálido surgia no horizonte como uma chama quase apagada, Borom viu algo no céu. Não era uma ave, nem uma nuvem. Era uma luz vermelha e distante, que crescia a cada noite. Os anciãos falavam de tempos antigos, de quando o céu anunciava mudanças que nenhum ser poderia deter. Eles diziam: "Quando o céu arder, a terra tremerá".
Borom não entendia o que era o “fim do mundo”, mas sentia que tudo estava diferente. Ele caminhou para o norte, guiado pelo instinto e por um cheiro distante de grama seca. Pelo caminho, encontrou pegadas de outras criaturas, mas elas sempre terminavam abruptamente, como se tivessem sido apagadas pelo próprio vento.
Em um vale estreito, protegido por paredes de gelo azul, Borom encontrou uma pequena manada de cervos. Eles também olhavam para o céu, assustados. Uma velha coruja-das-neves, pousada num galho seco, sussurrou para todos ouvirem:
— O gelo vai rachar... e quando isso acontecer, o rio de pedra virá.
Borom não sabia o que era um “rio de pedra”, mas sentiu um arrepio profundo. Ele decidiu continuar caminhando, mais rápido agora. Passou por lagos congelados, atravessou colinas cobertas de neve e ouviu, pela primeira vez, um som que não era vento: um estrondo profundo, vindo das montanhas.
Quando chegou ao topo de uma encosta, viu ao longe uma parede de rocha e fumaça se movendo, como se a própria terra estivesse viva. Era o rio de pedra. Lava e pedras rolavam, engolindo florestas e derretendo o gelo num rugido ensurdecedor.
Borom correu, mas seus passos eram lentos demais. O calor queimava o ar, e a neve sob suas patas virava lama. Ele parou num último pico gelado e olhou para o horizonte. A luz vermelha no céu agora brilhava intensamente, refletindo em seus olhos.
O mamute ergueu a tromba e soltou um bramido longo, que ecoou por todo o vale. Não era um grito de medo, mas de despedida. Borom sabia que talvez fosse o último da sua espécie a ver aquele mundo de gelo. E enquanto o calor avançava e o vento gelado se misturava à fumaça, ele permaneceu firme, como se quisesse guardar para sempre a lembrança do que um dia foi a Terra.
Naquele instante, o mundo parecia acabar.
Mas no silêncio que veio depois, o eco do bramido de Borom continuou viajando pelo ar, como se a Era do Gelo, de algum modo, ainda vivesse nele.
