A NOITE EM QUE O NATAL BATEU À PORTA
Naquela noite de dezembro, o calor parecia ainda maior do que nos outros dias. A rua estava silenciosa, quebrada apenas pelo canto distante de um grilo e pelo barulho de uma televisão ligada na casa da vizinha. Eu estava sentado na varanda, abanando o rosto com um pedaço de papel, quando senti um cheiro diferente no ar: era cheiro de rabanada recém-feita.
Minha mãe apareceu sorrindo na porta da cozinha, com açúcar espalhado na blusa e um prato nas mãos. “Natal chegando”, ela disse, como se isso explicasse tudo. Olhei para o céu escuro, sem estrelas, e pensei que aquele Natal seria igual aos outros: simples, sem presentes caros e com pouca gente na ceia.
Enquanto eu pensava nisso, ouvi um barulho no portão. Não era música, nem foguete. Era alguém batendo palmas, devagar. Corri até lá e encontrei o seu Antônio, nosso vizinho, segurando uma sacola pequena e um sorriso tímido. Ele morava sozinho desde que os filhos se mudaram e quase nunca recebia visitas.
— Trouxe um pouco de bolo — disse ele. — Fiz hoje à tarde e sobrou.
Convidei seu Antônio para entrar. Minha mãe logo puxou uma cadeira, meu pai desligou a televisão e, em poucos minutos, a nossa mesa ficou maior. O bolo dele encontrou a rabanada da minha mãe, e o suco gelado virou motivo de alegria. Não tinha peru, nem enfeites brilhantes, mas tinha conversa, risadas e histórias antigas.
Seu Antônio contou como eram os natais de antigamente, quando as ruas ficavam cheias de crianças brincando e ninguém passava a noite sozinho. Eu percebi que ele falava com os olhos brilhando, como quem guarda saudade dentro do peito.
Naquela hora, entendi algo importante: o Natal não entrou na nossa casa pelos presentes, nem pela ceia bonita. Ele entrou pelo portão, junto com um vizinho, um bolo simples e a vontade de estar junto.
Quando fui dormir, senti que aquela tinha sido a melhor noite de Natal que eu já tinha vivido. Porque, às vezes, o verdadeiro espírito natalino não faz barulho… ele só bate palmas no portão e espera ser convidado a entrar.
