Todos os anos, quando chega o mês de junho, muitas escolas iniciam os preparativos para as tradicionais festas juninas. Bandeirinhas, comidas típicas, quadrilhas, músicas e apresentações tomam conta dos corredores escolares. Mas existe uma pergunta que poucos profissionais da educação têm coragem de fazer:
Será que estamos respeitando a identidade cultural e religiosa da comunidade que atendemos?
Em muitas cidades brasileiras, especialmente no interior, a maioria da população é formada por famílias evangélicas e protestantes. Nesses contextos, alguns elementos das festas juninas podem gerar desconforto, resistência ou até mesmo afastamento das famílias da escola.
E aqui está a reflexão que pode causar polêmica:
A escola existe para preservar tradições ou para dialogar com a realidade dos seus estudantes?
Antes que alguém responda rapidamente, vale lembrar que a função da educação não é impor costumes, mas promover conhecimento, respeito e participação social. Quando uma escola insiste em reproduzir um modelo de festa sem considerar as características da comunidade, corre o risco de transformar uma celebração coletiva em um motivo de exclusão.
Isso não significa acabar com as festas juninas.
Significa repensá-las.
Em vez de enfatizar aspectos religiosos ligados aos santos católicos, a escola pode valorizar elementos culturais que pertencem ao patrimônio brasileiro: as danças populares, a culinária regional, as brincadeiras tradicionais, as vestimentas típicas, a história da vida no campo e as manifestações folclóricas.
Uma "Festa da Cultura Popular", um "Arraiá das Tradições Brasileiras" ou um "Festival da Vida Rural" podem cumprir os mesmos objetivos pedagógicos sem gerar conflitos desnecessários com as crenças das famílias.
A grande questão é que muitos educadores defendem a diversidade apenas quando ela concorda com suas próprias opiniões. Quando a diversidade envolve crenças religiosas diferentes das suas, o discurso muda.
Se defendemos uma escola inclusiva, precisamos incluir todos.
Se defendemos o respeito às diferenças, precisamos respeitar também as diferenças religiosas.
Se defendemos a participação da família, precisamos ouvir o que as famílias pensam.
A verdadeira educação não acontece quando a escola diz: "Sempre foi assim". Ela acontece quando a escola pergunta: "Como podemos construir isso juntos?"
Talvez a maior tradição que a escola deva preservar não seja a quadrilha, a fogueira ou as bandeirinhas.
Talvez seja o diálogo.
E você, professor?
A escola deve manter as festas juninas exatamente como sempre foram ou adaptá-las à realidade cultural e religiosa da comunidade escolar?
Essa discussão é necessária. E fugir dela não resolve o problema.
